Quando eu era um jovem pastor de jovens de 21 anos, recebi a minha primeira carta de ódio. Isso foi muito antes da existência da internet, das redes sociais ou do e-mail, então chegou a mim uma carta escrita à mão por um colega pastor da nossa cidade. Eram doze páginas detalhando como eu era um péssimo pastor, que não iria para o Céu e que ele jamais seria capaz de me perdoar.
No ensino médio, eu havia começado a servir a Deus, seriamente. No meu último ano, alguns de nós decidimos criar uma celebração de fim de ano para os alunos cristãos, como uma alternativa à festa oficial de formatura da escola. Por mais estranho que pareça, na minha província, no Canadá, era legal comprar bebida alcoólica aos dezoito anos. Então, a escola achou que seria uma boa ideia dar uma festa totalmente autorizada e regada a álcool em um campo em algum lugar, com direito a ônibus para levar todos os formandos para beber e dançar a noite toda. A lógica era: melhor beberem em um campo do que dirigirem bêbados pela cidade.
Como era de se esperar, a maioria dos estudantes cristãos não quis comparecer por causa do clima de festa. Então, eu e outros dois colegas, decidimos organizar uma celebração cristã saudável, cheia de diversão, mas sem álcool. Foi um grande sucesso, com centenas de jovens presentes.
Alguns anos depois, sou pastor de jovens e lidero o maior grupo de jovens da cidade. Essa mesma celebração foi transferida para um líder que trabalhava na escola, e ele a levou adiante ano após ano. A celebração continuou a crescer e se tornou uma alternativa popular à loucura das festas de formatura. Então, um dia, recebi um telefonema me convidando para levar o meu grupo de jovens para a nova versão da celebração — e foi aí que os problemas começaram.
Eles decidiram mudar o foco do evento na esperança de atrair mais jovens sem igreja. Parte da nova estratégia incluía ter uma banda tocando música secular ao vivo; foi aí que comecei a ter dificuldades. Como pastor supervisionando jovens crentes, eu sentia uma profunda responsabilidade em proteger aquilo a que eles estavam sendo expostos, e a música secular era um problema que eu não podia simplesmente ignorar. Eu não era ingênuo. Eu sabia que a maioria dos jovens ouvia rádio secular, mesmo eu incentivando alternativas cristãs. Mas a igreja se tornar a fonte dessa influência? Parecia uma contradição. Estávamos tentando tirar nossos jovens do mundo, não arrastar mais pessoas do mundo para a igreja. Perguntei a eles: “Eles já recebem o suficiente disso de suas escolas e amigos — a igreja também deveria ser a fonte de mundanismo?”
Agora, se o evento tivesse sido claramente enquadrado como um evangelismo para os perdidos e a música secular fosse simplesmente uma ferramenta para essa missão, eu poderia ter entendido. Na verdade, eu estava mais do que feliz em enviar alguns dos meus líderes mais experientes para se envolverem. Mas isso não foi suficiente. Eles queriam apoio total. Eu não estava tentando ser “mais santo do que eles”. Eu estava apenas tentando ser fiel ao padrão pelo qual me sentia chamado a viver. Foi quando a carta chegou. Sinceramente, isso me atingiu profundamente. Eu sabia que não era o líder mais maduro na época e talvez pudesse ter lidado com as coisas de forma mais diplomática — mas, mesmo agora, mantenho a decisão que tomei.
Muitos líderes da igreja disseram que eu estava causando divisão por não me submeter ao plano. Afinal, era “uma boa obra”, não era? Alcançar almas perdidas? Eles me disseram que precisávamos de unidade e concordância entre as igrejas para que Deus se movesse na cidade. Por anos, carreguei o peso disso, me perguntando se eu tinha sido, de alguma forma, o motivo da falta de avivamento em nossa cidade. Isso até que eu realmente entendi o que as Escrituras ensinam sobre unidade.
Paulo escreveu em Filipenses 2:1-2: “Portanto, se há alguma consolação em Cristo, se alguma consolação de amor, se alguma comunhão no Espírito, se alguns entranháveis afetos e misericórdias, completai a minha alegria, tendo o mesmo modo de pensar, o mesmo amor, sendo unânimes, tendo uma só mente.”
Muitos interpretam isso como se devêssemos negociar nossos padrões para chegar a algum tipo de acordo mútuo. Mas não creio que seja isso que Paulo quis dizer. Não me cabe corrigir o ministério de outra igreja — eles são responsáveis somente diante de Deus. A unidade da qual Paulo fala não é um acordo corporativo em prol da paz — é algo mais profundo. Os versículos seguintes revelam o cerne da unidade do evangelho: “Nada façais por rivalidade ou por vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo. Não cuide cada um somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros. Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, subsistindo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus coisa a que se apegar; mas esvaziou-se a si mesmo, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens. E, reconhecido na forma humana, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.” (Filipenses 2:3-8)
Somos ordenados a deixar que a mente de Cristo nos moldes individualmente. Quando eu opero a partir da mente de Cristo, e você também, é aí que nasce a verdadeira unidade. À medida que você continua orando no Espírito e permite que a mente Dele seja moldada em você, não se surpreenda quando isso gerar oposição. É tentador transigir em prol da paz, mas esse tipo de unidade é apenas religião. E não há poder na religião.
O verdadeiro poder, o tipo que transforma famílias e cidades, vem quando nos levantamos juntos em concordância com Jesus, não apenas uns com os outros. Em momentos de acusação ou pressão para se conformar, saiba disso: Deus está usando o padrão que Ele colocou em você para desafiar a falsificação ao seu redor. Permaneça forte. Permaneça fiel ao que Ele falou, mesmo que os outros não concordem. A verdadeira vitória vem pelo Seu Espírito.
Seu amigo,
Alan

Sobre o autor
Alan tem paixão por ensinar a igreja a ter proximidade e comunhão com Deus, e a se apaixonar por Jesus.
Os seus ensinos sobre o crescimento do homem espiritual, e o compromisso diário com a prática do evangelho, tem impactado a vida de muitas pessoas, que experimentam um verdadeiro encontro com Deus nos cultos em que o Alan ministra, onde há uma presença amorosa do Espírito Santo em uma atmosfera de paz.
Seu ministério acredita, firmemente, que o poder de Deus, através de cristãos espiritualmente equipados, pode propagar a presença transformadora de Deus, sendo a expressão exata do Seu poder, da Sua graça e do Seu amor.
Alan, em seu ministério, tem levado o evangelho de maneira clara e fiel a diversos locais nos EUA, Brasil e outros países.